quarta-feira, 4 de novembro de 2009

These Days...

Por muito tempo estive tentando descobrir o que estava acontecendo. Como seria possível transcrever algo que você nem mesmo sabe o que é? Já era bem difícil falar quando sabia o que estava sentindo...

Aquela história era o pedaço que faltava no quebra-cabeça. Ler e ouvir como aquela ausência se fazia tão forte me fez entender...

Cada pedaço meu havia sumido. Uma falha tão grave deixar que parte de alguém me preenchesse... Eu deveria ter imaginado que, quando esse alguém partisse, eu me partiria no vazio destruidor.

Então eu apertava meus braços contra o meu próprio corpo, tentando segurar o vazio, tentando não deixá-lo se alastrar.

Era a falta dele que eu sentia, como se tivesse sido apenas um sonho e nada, nunca, tivesse acontecido.

Talvez eu tivesse sonhado com os melhores momentos de minha vida, mas eles não existiram, não na verdade... Era como se um buraco negro se abrisse em minha alma.

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(Cena do Filme "Lua Nova"[New Moon, 2009])

domingo, 20 de setembro de 2009

Ato falho

Não tinham mais nada e por isso não se encontravam há meses. Então, no meio de mais uma questão em que não concordavam, ela deixou escapar:

- Não, amor... É... Desculpe.

E ele, claro, perdoou. Não o ato falho que o fizera tão feliz naquele momento, mas o pedido de desculpas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Feridinhas

Nós todos temos feridas: novas feridas e antigas, que já deveriam ter se curado mas não o fizeram.
A verdade é que nós não deixamos essas feridas cicatrizarem pelo simples fato de acreditar que elas nos ensinam algo. Pode até ser. Elas nos lembram de onde viemos, os caminhos que percorremos e como chegamos aqui. As nossas feridas fazem parte de nossa história. E a nossa história, nosso passado, é como um fantasma que vive voltando para nos assombrar...
Embora acreditemos que sempre aprenderemos algo com nossas mágoas, sempre haverá situações em que deveremos aprender diversas vezes a mesma coisa...

"I felt the same today
as I was feeling yesterday
It'll be the same tomorrow
from an only one change
Never want to say it's love
but it's what I'm thinking of..."

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Não quero dizer que é amor

Há algum tempo venho perdendo meus textos pelo caminho.

Sempre há essa necessidade sufocante de escrever, mas elas não saem. Elas, as palavras, estão aqui mas não querem sair, não querem ser lidas, sentidas, tocadas. Nem sei ao menos convencê-las de que o outro lado é bom, afinal convencê-las desta mentira seria a coisa mais desonesta do mundo.

Estão aqui, sufocadas por vontade própria, enquanto alma e coração se unem para expulsá-las de dentro.

Talvez o motivo desta recusa seja o fato de tê-las guardado mpor tanto tempo. Vivendo bons momentos, quis poupá-las para expor o clímax da história que não existiu... Então elas se recusam a reportar mágoas e ressentimentos e, sendo assim, mantem-se ao lado das lágrimas que, embora tenham sido solicitadas, também se recusam a sair.

Bem sei que a vida tem dessas tapeações, eu mesma já passei por milhares delas... mas é sempre bom ter a alma pura para voltar a confiar e acreditar, mesmo que seja mais um cliché, mesmo que a história volte a se repetir...






"Now I miss you
Now I want you
You're not coming back...
And I need you
But I can't have you
Even when you're here"
[Dido, Quiet Times]

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Tá de brincadeira!

-STOP!

Aquele foi o último grito que ouviu. Antes de entender o que acontecia, imaginou ter sido um alerta de algum um americano ou inglês, pois precedeu uma enorme dor no peito que, de tão forte, logo parou de doer.

Morreu. Assim mesmo, sem vida passando diante dos olhos, sem luz azul, sem eufemismos de qualquer qualidade. Morreu e ponto.

Quando se deu conta estava em uma espécie de sala, com gente de várias etnias e idades diferentes. Uma porção de pessoas que não entediam o que acontecia.

Compreendeu que estava morto. Um pouco por dedução e muito pela placa que trazia em letras garrafais: "Você está morto. Suas dúvidas serão sanadas em breve."

Ficou calado e pensativo, até que um senhor subiu em uma mesa e gritou para que formassem uma fila para contabilizar os pontos. Por coincidência esta mesa estava bem ao seu lado e, portanto, foi logo o primeiro a falar com o ancião:

- Contabilizar pontos? Do que se trata?

- Sim. Os pontos que você fez na vida.

- Então, quer dizer que estou morto mesmo?

- Tecnicamente? Sim...

- E "não - tecnicamente"?

- Também.

Ao responder isso, o senhor apoiou o peso do corpo em um dos braços para ver o tamanho da fila que se formava, olhou para o recém chegado e:

- Pode começar.

Coçando a cabeça, começou a enumerar:

- Sou católico, nunca faltei uma missa, briguei com meu irmão só até os catorze...

E foi abruptamente interrompido com uma espécie riso de canto de boca.

- Meu filho, religião nunca teve valor aqui. O que vale é o quanto você aproveitou da sua jornada no mundo material. É triste, mas quase todos que chegam aqui acreditam que só cruzarão aquele portão se tiverem seguido uma porção de regras que vocês mesmos criaram.

E prosseguiu:

- Sou testemunha das tentativas que Ele fez para que compreendessem isso. Mandou o próprio filho, e vocês distorceram tudo que ele disse. Criou as terras, cada uma com suas belezas e vocês cercaram para chamar de países e acharem que têm legitimidade para atacar os mais fracos. Inspirou músicas, histórias... E olha que as regras são facílimas, tal qual a mais simples brincadeira de criança.

Ao ouvir esta última frase o desencarnado compreendeu o sentido de tudo. A vida era um enorme jogo de stop, e o grito que ouvira na sua hora derradeira foi o sinal que era chegado o momento de prestar contas. E foi só aí que sua vida passou diante dos seus olhos.

- Pela sua expressão vejo que finalmente compreendeu tudo. Está preparado? Perguntou o velho detrás da mesa.

E acenando positivamente com a cabeça, começou a responder:

- Sinceramente não sei se fiz pontos suficientes para entrar ali. No início, em minha infância, fui muito bom nesse jogo. Provei de todo tipo de fruta: abacaxi, amora, ameixa, abacate... isso para ficar apenas na letra "a", mas depois me fizeram acreditar que a maioria delas deveria ser evitada, umas por serem muito gordurosas, outras ácidas demais.

- Brinquei com vários tipos de animais. E gostava de todos! Segurava répteis com as mãos, queria montar em cachorros, tentava fazer cócegas nos gatos para ver se riam como minha irmãzinha. Depois me deixei crer que os gatos eram traiçoeiros, os cachorros bobos demais e os répteis, sem exceção, eram peçonhentos. Não toquei em mais nenhum animal vivo desde então.

- Conheci o mundo pelas histórias do meu avô, que viajou mais do que qualquer outra pessoa que conheci na vida - ele sim deve ter feito muitos pontos aqui - pensou o morto. No entanto, quando tive oportunidade de conhecer outras culturas com os meus próprios olhos, percebi que achava o deslocamento muito chato. E só ia quando eram viagens de negócios. Só descobri que todos os hotéis parecem iguais.

- E por falar em negócios, na infância perdia horas escolhendo uma profissão. Já quis ser bombeiro, maquinista, ascensorista, guarda de trânsito... e muitas outras que nem lembro. Mas me tornei advogado por que acreditei que era mais importante ganhar dinheiro.

- Como eu disse no início, mudei muito. A rotina fez com que eu perdesse a coragem de experimentar porque precisava acordar cedo na segunda-feira. Eu devia ter percebido os sinais. Cheguei até a ganhar um livro sobre as mil coisas que devemos fazer antes de morrer. Mas achei que não lê-lo seria umas dessas mil coisas e, por isso, arranquei e guardei a dedicatória de minha mulher e joguei o livro no lixo - com isso contei duas coisas das mil.

- No entanto, percebo que todos os planos que abandonei por achar que eram bobagens infantis ou idealistas demais seriam os que me colocariam portão adentro. Enquanto os investimentos e as dietas rigorosíssimas só me atrapalharam, mesmo porque nem nestes eu fugia da rotina fundo-conservador x gelatina-light-de-limão.

- Com isso, eu percebo que teria muito mais chances se tivesse vindo para cá aos 10 anos.

E o velho respondeu:

- Seria uma vantagem natural. Não atoa que dizem que estes vêm como anjinhos. Mas lamentação de nada adianta agora. Sabemos que, considerando tudo, não chega a ser merecedor de passar a eternidade aqui no limbo. Mas ter abdicado da vida apenas para sobreviver fez com que perdesse o direito de passar direto deste ponto. E é por isso que tenho uma pergunta para você, agora que sabe das regras: o que faria se tivesse mais uma chance?

E sem pensar muito, o candidato falou:

- Abusaria do ócio de alguma pessoa que esta tomando o mesmo caminho que eu e faria com que escrevesse o post mais brega de sua vida. Não para que este se envergonhe, mas para que reflita um pouco e evite que no final de sua caminhada não tenha que assistir tantas cenas repetidas quando estiver aqui, na frente do senhor, vendo a vida dele passar diante de seus olhos.

Os portões se abriram.

A cabeça também. Boa noite! ;)